Afinal, o que é ‘fazer diferença’? Contrafactuais e escolha de carreira

de Benjamin Todd, janeiro de 2012 *

 

Fazer o bem diretamente?

Quando nós pensamos sobre como fazer diferença em nossas carreiras, é natural pensar sobre o que nós podemos fazer diretamente. Nós pensamos sobre as crianças para as quais poderíamos construir escolas, os sem-teto que nós poderíamos ajudar, as campanhas das quais poderíamos tomar parte, e assim por diante.

Mas o que nós fazemos diretamente não é a única coisa que importa. Nós também precisamos pensar no que teria acontecido se nós não tivéssemos agido – o que é chamado de contrafactual. Imagine que você está envolvido em um acidente de carro. Quando você recupera a consciência, você descobre que sua mãe está seriamente ferida. Paramédicos acabaram de chegar e estão se preparando para ajudá-la.

Suponha que você acredite que o importante é o que você pode fazer diretamente. Por conseguinte, você afasta os paramédicos do caminho e começa a socorrer sua mãe com primeiros socorros. Você não é um expert, então por mais que você salve a vida dela, você a causa dano permanente na espinha.

Se você tivesse deixado os paramédicos trabalharem, sua mãe teria se recuperado completamente.

A consequência da sua ação é a diferença entre o que a aconteceu como resultado de sua ação e o que teria acontecido de outra forma. Nesse caso, a consequência da sua ação foi sua mãe sofrer um dano permanente na espinha. É por isso que afastar os paramédicos foi errado.

Consequências importam

Quando se julga o bem [goodness] que um ato faz, o que você faz diretamente importa, mas as consequências também.

Normalmente, socorrer sua mãe realizando primeiros socorros seria a coisa certa a fazer. Mas nesse caso, já que isso resulta em dano permanente na espinha, parece bem claro que era a coisa errada a fazer.

A tensão em conselhos de carreiras éticas convencionais

Quando as pessoas discutem carreiras éticas, elas falam frequentemente sobre ‘fazer diferença’ como a suposta razão para ter escolhido tal carreira.

Então o que significa fazer diferença? ‘Fazer diferença’, se significa algo, significa trazer à realidade coisas boas que não aconteceriam de outra forma.

Mas quando as pessoas pensam sobre quais carreiras são éticas, elas frequentemente parecem se focar naquelas carreiras que fazem bem diretamente – doutores, trabalhadores voluntários, militantes, etc.

Mas nós vimos que o bem que você faz diretamente pode ser completamente diferente da diferença que você faz.

80.000 Hours (‘80.000 Horas’) se distingue porque nós levamos contrafactuais a sério – nós queremos trazer consequências positivas que não teriam ocorrido de outra forma: para realmente fazer diferença. Nós nos preocupamos muito menos com se o que fazemos corresponde às noções convencionais de quais carreiras são éticas. De fato, nós somos céticos sobre adotar muitas das carreiras éticas convencionais.

Isso é porque carreiras que são normalmente consideradas éticas tendem a ser extremamente competitivas. Isso significa que, se você não tomar aquele trabalho, alguma outra pessoa o tomará. E já que o processo de seleção é competitivo, elas provavelmente serão tão boas no trabalho quanto você teria sido – você é substituível. Isso vale a não ser que você tenha talentos particularmente especiais, que não podem ser substituídos. A não ser que, de fato, você seja o paramédico no acidente de carro.

A maior parte de nós não está nessa posição. E isso significa que a diferença que nós faríamos ao adotar essa carreira ‘ética’ é praticamente zero; mesmo que nós pudéssemos ter feito muito bem diretamente.

Então, nós acabamos vendo um simples primeiro passo para encontrar uma carreira de grande impacto: se você quer fazer diferença, faça algo que não teria acontecido de outra forma.

Autor

Benjamin Todd é estudante de Física e Filosofia da Universidade de Oxford e Diretor Geral da organização 80.000 Hours, que “encoraja as pessoas a pensar de forma diferente sobre o que significa ter uma carreira ética”.

Notas


  1. * Texto traduzido por Lucas Machado. O original em inglês pode ser lido aqui.