Considerações cruciais para o futuro da humanidade

de Pablo Batista, 2011 *

 

Resumo: Por muito tempo lutamos pela nossa sobrevivência. No entanto, com o conhecimento acumulado e o desenvolvimento de novas formas de tecnologias, atualmente somos capazes de alterar drasticamente nossa constituição física e cognitiva, permitindo atingirmos novos níveis de “humanidade”. Mas, ao mesmo tempo em que esperamos o florescer desse novo tempo, devemos também direcionar nossas preocupações para os grandes riscos existenciais que ameaçam pôr um fim a todas as nossas aspirações. Esses riscos podem ocorrer pela disseminação de armas de destruição em massa, inteligência artificial não amigável, nanotecnologia fora de controle, impactos de asteroides, super erupções vulcânicas e pandemias virais. O resultado seria a limitação do potencial humano, evitando que alcancemos o estágio desejado de pós-humanos. Em nossa tentativa de evitar os riscos que se agigantam contra nossa espécie, podemos classificar em dois níveis de prioridades os problemas a serem resolvidos para alcançarmos uma sociedade perfeita: Nível 1 – estão os riscos capazes de destruir ou diminuir drasticamente e irreversivelmente todas as formas de vida do planeta; Nível 2 – embora não seja tão grave quanto os riscos de nível 1, pois é pouco provável que estes provoquem o fim de nossa espécie, nele estão os problemas que causam atualmente o sofrimento de inúmeras pessoas no planeta. Para assegurar a nossa sobrevivência, propomos a criação de uma Organização com alcance global capaz de solucionar as dificuldades dos níveis 1 e 2. Essa Organização defenderá acima de tudo a preservação e o florescimento da espécie humana e das demais formas de vida do nosso planeta. Somente dessa maneira nos beneficiaremos do progresso da ciência e da tecnologia, ampliando nossas capacidades físicas e cognitivas, permitindo que nossos pensamentos emanem constantemente e sem fronteiras, prolongando a vida para que possamos realizar as nossas mais belas aspirações.
 

Considerações Cruciais

Os pessimistas dizem que o motivo por que não fomos contatados por extraterrestres é que, quando uma civilização atinge o nosso estágio de desenvolvimento, torna-se instável e destrói a si mesma. Contudo, sou um otimista. Não acredito que a raça humana tenha chegado tão longe simplesmente para se extinguir justo quando as coisas estão se tornando interessantes. – Stephen Hawking (O Universo Numa Casca de Noz) –

Atingimos atualmente a incrível marca de 7 bilhões de habitantes no planeta. Evidentemente essa é uma marca preocupante devido aos problemas relacionados com a superpopulação e as dificuldades crescentes em prover a todas essas pessoas, os recursos necessários para sua sobrevivência. Mas, essa conquista expressiva também possui seu lado positivo, pois a população mundial é um índice de nossa capacidade tecnológica de preservar a vida e de nos alimentar.

O aumento do conhecimento científico e o desenvolvimento acelerado de novas formas de tecnologias estão alterando drasticamente nossa concepção do que chamamos de “humanidade”. Por milênios lutamos pela nossa sobrevivência, e agora com o conhecimento acumulado e disseminado entre as mentes no mundo, deixamos de ser coadjuvantes no teatro da evolução e criamos as condições para modificar a nossa própria história evolutiva 1.

Ao mesmo tempo em que esperamos o florescer desse novo tempo em que teremos nossas capacidades físicas e mentais ampliadas e aprimoradas, devemos também direcionar nossas preocupações para os grandes riscos existenciais que ameaçam pôr um fim a todas as nossas aspirações, justamente agora quando as coisas começam a ficar interessantes. Isso porque em paralelo com essas grandes esperanças, tamanha engenhosidade colocou em nossas mãos o poder de causar a destruição de todas as formas de vida, por meios para os quais ainda não temos um histórico de experiência como pela disseminação de armas de destruição em massa, inteligência artificial não amigável, nanotecnologia fora de controle, pandemias virais e outras formas de riscos capazes de extinguir a vida inteligente na Terra.

Atualmente nos confrontamos com catástrofes naturais como furacões, tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas, e também com problemas como escassez de víveres, falta de água potável, conflitos armados, disseminação de doenças contagiosas, e outras formas de danos que semeiam diariamente centenas ou milhares de vidas preciosas. A ocorrência desses eventos pode tirar a vida de milhares de pessoas, mas, alguns eventos como impactos de asteroides, super erupções vulcânicas, pandemias e IA descontrolada, podem diminuir drasticamente e até mesmo exterminar todas as formas de vida no planeta. O resultado seria a limitação do potencial humano, não permitindo que alcancemos o estágio desejado de pós-humanos.

Nesse texto trataremos brevemente dos dois.
 

O que podemos fazer?

Se quisermos alcançar novos espaços de projeto e possibilidades, precisaremos sobreviver a nossa adolescência tecnológica. Para esse objetivo, a investigação filosófica pode desempenhar a sua função ao delinear os rumos para o desenvolvimento do conhecimento humano 2. Em nossa tentativa de evitar os riscos que se agigantam contra a humanidade, podemos classificar em níveis de prioridades os problemas a serem resolvidos para alcançarmos uma sociedade perfeita em seu pleno desenvolvimento de ciência e tecnologia:

Nível 1: Nesse nível incluímos os riscos que podem destruir ou diminuir drasticamente e irreversivelmente todas as formas de vida do planeta, como aconteceu em épocas diferentes com os dinossauros e com os dodôs: Impactos de asteroides, super erupções vulcânicas, guerras nucleares, I.A. fora de controle, nanotecnologia devoradora de moléculas, proliferação de armas de destruição em massa, pandemias globais, mudanças climáticas e conflitos nucleares.

Nível 2: Embora não seja tão grave quanto o risco de nível 1, pois é pouco provável que provoquem o fim de nossa espécie, no nível 2 estão os riscos que causam o sofrimento de inúmeras pessoas no planeta, como a fome, falta de água, pobreza extrema, conflitos armados e doenças como HIV e a malária.

Embora listados em ordem de prioridades, não penso que um dos níveis deva ser privilegiado em detrimento do outro. Pois embora os riscos listados no primeiro nível possam causar um dano irreversível e um maior sofrimento com a perda irrecuperável de bilhões de formas de vida, o nível 2 consiste em problemas que enfrentamos atualmente na maioria dos países. Em conformidade com a concepção do amplo acesso, não fará sentido algumas pessoas se beneficiarem da tecnologia, enquanto milhões de pessoas padecem diariamente pelos problemas do Nível 2 3.

Para assegurar em escala global a sobrevivência de nossa espécie e de todos os seres sencientes, será necessária a mobilização das melhoras mentes do planeta e de imensos recursos financeiros. As pessoas altruístas interessadas em ampliar nosso espaço de possibilidades estarão entre filósofos, matemáticos, físicos, economistas, políticos e empreendedores em geral, preocupados em aplicar suas ideias inventivas e recursos financeiros para preservar a nossa existência. Somente com a preservação da espécie e a diminuição do sofrimento, poderemos nos maravilhar com a ascensão do homem a um nível mais elevado de conhecimento e contentamento.

Propomos a criação de uma Associação ou Organização com alcance global capaz de solucionar as dificuldades do Nível 1 e 2. Essa Organização não defenderá apenas os interesses políticos de poucos, mas defenderá acima de tudo a preservação e o florescimento da espécie humana e das demais formas de vida do nosso planeta.

Somente assim poderemos nos beneficiar individualmente do progresso da ciência ampliando nossas capacidades físicas e cognitivas, melhorando nossa memória e outras faculdades intelectuais, refinando nossas experiências emocionais, prolongando a vida para que possamos realizar as nossas mais belas aspirações, permitindo que nossos pensamentos emanem constantemente e sem fronteiras.

Notas


  1. * Texto original escrito por Pablo Batista. A revisão foi feita por Leo Arruda.
  1. As alterações em nossa condição de seres humanos ocorrerão através da engenharia genética, de próteses inteligentes para pessoas que tiveram membros do corpo amputados, da interfaces cérebro-computador e de terapias antienvelhecimento e anti-morte.
  2. Como geralmente o desenvolvimento da ciência e da tecnologia não anda em paralelo com a Ética, a Filosofia desempenhará seu papel crucial na criação de preceitos éticos que sirvam para nos orientar nesse novo estágio da evolução humana.
  3. Sobre isso Bostrom disse: “Amplo acesso: Não é suficiente que o reino pós-humano seja explorado por alguém. A plena realização do núcleo dos valores transhumanista exige que, idealmente, todos devem ter a oportunidade de se tornar pós-humanos. Seria sub-ótimo se a oportunidade de se tornar pós-humanos fosse restrita a uma pequena elite”.