Crença na Crença

de Eliezer Yudkowsky, 2007 *

 

Carl Sagan contou, certa vez, uma parábola sobre um homem que afirma: “Tem um dragão na minha garagem”. Fascinante! Dizemos a ele que gostaríamos de ver o tal dragão – vamos logo para a tal garagem! “Ah, mas é que é um dragão invisível”, diz o homem.

Bem, como Sagan aponta, isso não torna a hipótese infalsificável. Talvez, se fôssemos à garagem, embora não víssemos dragão nenhum, nós ouviríamos sua respiração pesada, vinda do nada; pegadas aparecendo misteriosamente; e instrumentos mostrariam que alguma coisa na garagem estaria consumindo oxigênio e expirando dióxido de carbono.

Mas suponha que nós disséssemos ao homem “Tudo bem, nós vamos à garagem e veremos se conseguimos ouvir a respiração pesada do dragão” e ele respondesse que não, é um dragão inaudível. Propomos então medir o dióxido de carbono no ar, e o homem responde que o dragão não respira. Propomos jogar um saco de farinha no ar, para ver se ela revela os contornos do dragão, e o homem diz, imediatamente: “O dragão é permeável à farinha”.

Carl Sagan usava essa parábola para ilustrar a clássica moral que diz que hipóteses ruins têm que correr para evitar sua falsificação. Mas eu conto a história aqui para apontar outra coisa: aquele homem deve ter um modelo preciso da situação em algum lugar em sua mente, porque ele consegue prever exatamente para que resultados experimentais ele vai precisar inventar desculpas.

Alguns filósofos ficaram muito confusos diante desse tipo de cenário, perguntando: “O homem realmente acredita que tem um dragão na garagem?”. Como se o cérebro humano só tivesse espaço em disco para representar uma única crença por vez! Mentes de verdade são mais emaranhadas que isso. Como discuti em outra ocasião, existem tipos diferentes de crenças; nem todas são previsões diretas. O homem claramente não espera ver nada de diferente ao abrir o portão da garagem, ou não inventaria desculpas antes do experimento. Pode ser, também, que o conjunto mental de crenças proposicionais do sujeito contenha “Tem um dragão na minha garagem”. Para um racionalista, pode parecer que essas duas crenças deveriam entrar em conflito mesmo que sejam de tipos diferentes; mesmo assim, é fato que alguém pode escrever “O céu é verde!” ao lado de uma foto do céu azul, sem que o papel exploda em chamas.

A virtude racionalista do empirismo deveria impedir esse tipo de erro. Nós deveríamos perguntar, constantemente, que experiências nossas crenças preveem, fazer com que elas paguem aluguel em expectativas. Mas o problema do homem que afirma ter um dragão é mais profundo, e não pode ser curado por um conselho tão simples. Se você acredita que tem um dragão na garagem, então você espera abrir a porta e ver um dragão. Se você não vir um dragão, significa que não tem um dragão na garagem. É bem simples. Você pode até tentar com a sua própria garagem.

Não, essa coisa de invisibilidade é sintoma de algo bem pior.

Dependendo de como foi a sua infância, você talvez lembre da época em que começou a duvidar que Papai Noel existia, mas você ainda achava que deveria acreditar no Papai Noel, então você tentava negar as dúvidas. Como Daniel Dennett observa, mesmo quando é difícil acreditar em algo, muitas vezes é bem mais fácil acreditar que você deve acreditar naquilo. O que significa acreditar que o Céu Cósmico Supremo é, ao mesmo tempo, perfeitamente azul e perfeitamente verde? A afirmação é confusa; não é claro nem mesmo o que significa acreditar nisso – em que exatamente você estaria acreditando, se acreditasse nisso. É muito mais fácil acreditar que é adequado, que é bom e virtuoso e benéfico, acreditar que o Céu Cósmico Supremo é, ao mesmo tempo, perfeitamente azul e perfeitamente verde. Dennett chama isso de “crença na crença”.

E aqui as coisas se complicam, como a mente humana costuma fazer – e creio que mesmo Dennett simplifica demais como essa psicologia funciona na prática. Para começar, se você acredita na crença, você não pode admitir para você mesmo que você só acredita na crença, porque é virtuoso acreditar, não acreditar na crença, e, portanto, se você só acredita na crença, ao invés de acreditar, você não é virtuoso. Ninguém vai admitir para si mesmo “Eu não acredito que o Céu Cósmico Supremo é azul e verde, mas eu acredito que deveria acreditar nisso” – a menos que seja alguém com uma capacidade de admitir a própria falta de virtude maior do que o normal. As pessoas não acreditam que acreditam numa crença, elas apenas acreditam na crença.

(Aqueles que acharem isso confuso podem achar útil estudar lógica matemática, que mostra as claras distinções entre uma proposição P, uma prova de P, e uma prova de que P pode ser provada. Existe distinções igualmente claras entre P, querer P, acreditar em P, querer acreditar em P e acreditar que você acredita em P.)

Existem diferentes tipos de crença na crença. Você pode acreditar em uma crença explicitamente; ou seja, você pode recitar em sua consciência, deliberadamente, “É virtuoso acreditar que o Céu Cósmico Supremo é perfeitamente azul e perfeitamente verde”. (Ao mesmo tempo em que acredita que você acredita nisso, a menos que você tenha uma capacidade de admitir a própria falta de virtude maior do que o normal.) Mas também há formas menos explícitas de crença na crença. Pode ser que o homem do dragão tema a ridicularização que ele imagina que sofrerá se confessar publicamente que estava errado (apesar de que, na verdade, um racionalista fosse lhe dar os parabéns, e fosse mais provável que outras pessoas o ridicularizem se ele continuar afirmando que tem um dragão na garagem). Talvez o homem esteja se esquivando da possibilidade de admitir para si mesmo que está errado porque isso conflitaria com sua auto-imagem de descobridor do dragão, que vê na garagem o que os outros não conseguem ver.

Se todos os nossos pensamentos fossem proposições verbais como as que os filósofos manipulam, a mente humana seria muito mais fácil de entender. Imagens mentais fugazes, esquivas não-verbais, desejos que buscamos sem reconhecer – todos são responsáveis pelo que somos, tanto quanto as palavras.

Embora eu discorde de Dennett em alguns detalhes e complicações, ainda acho que seu conceito de crença na crença é a chave para entender o homem do dragão. Precisamos, no entanto, de um conceito mais amplo de “crença”, que não se limite a proposições verbais. “Crença” deveria abarcar fatores não verbalizados que controlam expectativas. “crença na crença” deveria abarcar fatores não verbalizados que guiam o comportamento cognitivo. Não é realista, do ponto de vista psicológico, afirmar “O homem do dragão não acredita que há um dragão em sua garagem; ele acredita que é benéfico acreditar que há um dragão em sua garagem.”, mas é realista afirma que o homem do dragão faz previsões como se não houvesse dragão algum na garagem, enquanto inventa desculpas como se acreditasse nessa crença.

Você pode ter uma imagem mental comum da sua garagem, que prediz corretamente o que você experimenta quando abre a porta, e nunca pensar na frase “Não há um dragão na minha garagem”. Aliás, eu aposto que isso já aconteceu com você – que quando você abre a porta da sua garagem ou quarto ou o que seja, e não espera ver dragões, nenhuma frase assim passa pela sua cabeça.

E para se esquivar de desistir da sua crença no dragão – ou para se esquivar de desistir de sua auto-imagem como uma pessoa que acredita no dragão – não é preciso pensar explicitamente “Eu quero acreditar que há um dragão na minha garagem”. Só é preciso se esquivar da perspectiva de admitir que você não acredita.

Para prever corretamente quais desculpas terá que inventar para quais resultados experimentais, o homem do dragão precisa (a) possuir um modelo preciso capaz de controlar suas expectativas em algum lugar de sua mente e (b) agir cognitivamente para proteger (b1) sua crença proposicional flutuante sobre o dragão ou (b2) sua auto-imagem como alguém que acredita no dragão.

Se alguém acredita na crença no dragão, e, ao mesmo tempo, acredita no dragão, o problema é muito menos grave. A pessoa estará disposta a arriscar previsões experimentais, e talvez até a concordar em deixar de acreditar se sua previsão der errado – embora a crença na crença ainda possa interferir nesse processo, se a crença em si não for totalmente confiante. Para que alguém invente desculpas antes do experimento, parece ser necessário que a crença, e a crença na crença, estejam fora de sincronia.

Notas


  1. * Texto traduzido por Gustavo Bicalho. Revisado por Lauro Edison. O original pode ser lido aqui: http://lesswrong.com/lw/i4/belief_in_belief/