2004 ds

Criogenia e Transhumanismo, indo além da morte

De Diego Caleiro, 2012  * pdf

 

Recentemente ganhou atenção da mídia nacional a história de Ligia Monteiro, cujo pai, morto em fevereiro foi congelado em gelo seco, com objetivo de ser criogenado, isto é, preservado com esperança que a medicina um dia possa, em forma biológica ou virtual, reanimar sua mente.

Ligia está se inscrevendo agora para a criogenia, juntamente com seu pai, que expressou em vida o desejo de ser congelado. O IERFH pretende, como for possível, ajudá-la nessa conquista judicial e ética na história de nosso país.

Me inscrevi para ser criogenado em 2009, sendo o primeiro brasileiro a fazê-lo. Para mim, pessoalmente, o ganho da causa de Lígia representa um grande avanço na liberdade individual no país. Para o Instituto, que visa discutir e colocar em debate questões éticas pertinentes ao futuro, é um momento frutífero. Esse momento coincide com a primeira Jornada Transhumanista, que ocorreu nessa sexta-feira na USP, com apresentações de membros do instituto e de um dos fundadores da associação mundial de transhumanismo, David Pearce.

A criogenia é talvez o mais polêmico dos temas relacionados a novas tecnologias e seu uso ético. Embora a humanidade tenha desde sempre desejado ter a chance de viver um pouco a mais, seja através de religiões, ou da medicina, a ideia de viver um pouco mais depois de um grande intervalo de tempo no qual não se está vivo é estranha para muitos. Mas é estranha mesmo?

Para Ben Best, diretor do instituto de criogenia e meu amigo, a criogenia deve ser pensada como uma medicação. A criogenia é uma tentativa, mesmo que de baixa probabilidade, de manter uma pessoa viva sob condições adversas. São muito conhecidos casos de pessoas cuja temperatura corporal abaixou bastante por um tempo substancial, as vezes até mesmo com parada cardíaca, e que voltaram a viver vidas normais, sem sequelas. Animais podem atualmente não apenas ser criogenados, isto é, congelados, mas também descriogenados vivos (Lagartos, insetos, aracnídeos, anfíbios). Ainda não sabemos quando descobriremos como descongelar um humano e fazê-lo ficar vivo, mas como a velocidade de deterioração a -196 graus é tão baixa, mas tão baixa, podemos esperar para isso o mesmo tempo que nos separa da invenção do carro.

O progresso de muitas tecnologias, famosamente a computação, segue a lei de retornos acelerados, isto é progride exponencialmente, dobrando, triplicando, ou quadruplicando a cada poucos anos, ou meses. Os próximos cem anos, como se pode ver nos textos do Instituto, e como é tópico de meu mestrado na USP, podem revelar mudanças tão grandes quanto os últimos mil, e temos a prestigiosa e quase impossível tarefa de viver e nos adaptarmos a esses tempos acelerados.

Hoje há 200 pessoas congeladas e 2000 pessoas, como eu, e em breve, como a Ligia e seu pai, inscritas em criogenia. Esse número crescerá enormemente conforme for se tornando mais evidente, aos olhos da sociedade, que será de fato possível (se for) descongelar uma pessoa, ou, alternativamente, escanear todo o seu cérebro, e simulá-lo em um meio virtual ou em um robô. Meu interesse em criogenia data de 2004 quando descobri que o processo era possível e trabalhei para a fundação Matusalém, que pesquisa como fazer um rato viver dois terços a mais do que o que seria comum, na esperança de atrair atenção para similar pesquisa em humanos. A coragem para ser o primeiro nisso que, curiosamente, no Brasil é visto como uma coisa “maluca”, demorou mais 5 anos para vir. É incomum aliás em outros países a reação que vi em Brasileiros. Talvez isso se deva ao fato de que no Brasil a ideia ainda é excêntrica.

Como diria Bertrand Russell, o grande filósofo:

“Não tema em ser excêntrico em suas opiniões, pois todas as opiniões agora aceitas foram consideradas excêntricas um dia.”

A ideia de não desconsiderar opiniões excêntricas permeia os assuntos que o IERFH gostaria de discutir e debater com o público brasileiro, por exemplo a criogenia (possivelmente o assunto mais controverso de todos). O transhumanismo também é considerado curioso e excêntrico por muitos. A ideia de melhorar a condição humana além do que o relojoeiro cego da evolução produziu inspira muita dúvida e debate. Evidentemente, é uma boa ideia, mas uma ideia difícil de digerir a princípio. Isso porque a própria evolução (biológica mas também cultural) nos embrenhou com a ideia de que o que é natural é bom. O famoso problema do dever ser. Confundir como as coisas devem ser, com o que atualmente são, ou achar que o que é, é um bom guia para avaliarmos como as coisas devem ser. O mesmo nível de excentricidade goza a Inteligência Artificial. Em primeiro lugar por ser um assunto complexo e não compreendido por grande parte da população. Estamos todos familiarizados com computadores capazes de feitos incríveis, como vencer o campeão mundial de xadrez (Deep Blue X Kasparov) ou vencer um famoso jogo de respostas de décadas de idade (Watson). Mas não compreendemos, ou conhecemos, o salto qualitativo entre inteligência artificial fina, especializada, e Inteligência Artificial Generalizada.

Grandes questões éticas permeiam a criogenia: Podemos nos modificar dessa forma? Nossos valores morais serão preservados se formos reanimados uma centena de anos no futuro? Devemos descongelar aqueles que pediram para ser descongelados décadas antes? Em que ordem devemos descongelar aqueles que pediram para ser descongelados? Se alguém quisesse se congelar antes de morrer, por possuir uma doença degenerativa do cérebro, isso deveria ser permitido pela lei?

Notas


  1. * Texto original escrito por Diego Caleiro. Revisado por Leo Arruda.