Razão: Uma Visão Intuitiva — Parte IV: A Natureza das Inferências

por Lauro Edison, 2012 * (Ler partes I, II e III)

Serão as inferências naturais humanas e as derivações formais, em algum sentido, o mesmo tipo de processo? No que se trata da natureza essencial da razão, de seu mais profundo núcleo, essa é a grande questão. Pois bem. Falei antes de tais “processos inferenciais”, da forma mais neutra possível, como processos de “escrutinar as informações dadas de uma tal maneira que, se estas estiverem corretas em algum sentido relevante, também estarão corretas, no mesmo sentido, as informações resultantes do escrutínio”. E perguntei: qual é a maneira de escrutinar informações para esse fim?

 

Uma resposta segura, pelo menos no contexto da lógica formal, é a de escrutinar as informações seguindo regras específicas, regras que, como se diz, “preservam a verdade”. Dadas, por exemplo, as informações ‘M’ e ‘M implica P’, uma regra de inferência conhecida como modus ponens autoriza inferirmos a informação adicional ‘P’. Se as primeiras são informações verdadeiras, a última também o será. Preserva-se a verdade, pois. Mas só é capaz de aplicar a regra um escrutínio que, lançado sobre o par de informações iniciais, for capaz de revelar a relação de identidade entre as duas ocorrências de ‘M’ (isto é, que elas simbolizam a mesma coisa), o funcionamento de ‘implica’, etc. E qual poderia ser a dificuldade nisto? Por ofensivamente óbvios que tais detalhes possam nos parecer, jamais estariam automaticamente ao alcance de entidades obtusas como proto-bactérias ou projetos de calculadoras de bolso. É um desafio para nossos engenheiros, e para a evolução, tornar tais entidades “sensíveis” ou “adequadamente reativas”, em algum nível, a tais padrões lógicos. E uma vez que a informação se complique, exigindo numerosos passos e variados tipos de regras, o que era óbvio rapidamente passa a nos parecer intratável: nos aproximamos das amebas em nossa total incompetência para perceber certas conexões lógicas que, apesar de complexas para nós, são essencialmente tão cristalinas e firmes quanto o nosso simples ‘M, e M implica P; logo P’ acima. O digam os computadores modernos.

 

Esta – obedecer a uma regra que preserva a verdade – é uma maneira de realizar inferências amplamente considerada adequada. Por não poucos, a única maneira completamente adequada e rigorosa em última instância; nada menos do que a força motriz por trás da aparente magia e revolucionária eficácia dos computadores. É verdade que as informações utilizadas precisam estar devidamente traduzidas ou arregimentadas segundo o padrão rígido exigido pelo sistema lógico em questão. E nem toda informação – assim parece – cabe em tais camisas-de-força formais (possivelmente a maior parte não cabe sem alguma distorção). Daí que não foi tão de admirar, para muitos, que um computador se destacasse num ambiente tão artificial e sistemático quanto o de um tabuleiro de xadrez. Mas as últimas décadas testemunharam, perplexas, a maquinal e desengonçada mão de ferro das regras formais evoluir, atingindo a delicadeza de assimilar e tratar, em alguns aspectos até com mais eficácia do que nós, dados aparentemente tão indefiníveis e caudalosos quanto melodias, sorrisos, a voz humana (sintetizada e reconhecida). Quando uma câmera acerta bater a foto no momento em que sorrimos, é porque houve sucesso em arregimentar formalmente, e com uma complexidade total que escapa até à intuição dos engenheiros envolvidos, um grande, faustuoso e mirabolante ‘M’: nada menos do que um sorriso. E como um sorriso (M) implica um flash (P), bem, então P: aí vai um flash. E temos uma boa foto.

 

Assim os computadores, em sua maneira formal e sistemática de realizar inferências (para muitos detestavelmente vazia, mecânica e insensível), têm nos alcançado e superado em várias áreas, incluso em muitas daquelas nas quais esperaríamos, pela nossa sensibilidade natural, ser inatingíveis. E que “sensibilidade natural” é essa que nós temos? Incluirá um modo diferente de fazer inferências? Ou temos uma versão da lógica formal na cabeça? Fazemos o mesmo que os computadores? É isso o que significa raciocinar?

 

Parece que nós fazemos isso de outra maneira: em vez de seguir regras fixas, improvisamos em cima de intuições sobre a estrutura intrínseca1 das coisas investigadas. Assim, nenhuma regra da lógica nos diz que quadrados não podem ser redondos. Esta seria, como se diz, uma contradição material, por oposição às contradições formais como “este quadrado é não-quadrado”, estas sim excluídas pela lógica formal. No entanto, em total independência de regras, é da natureza metafísica2 dos quadrados que eles não possam ser redondos. Certamente graças à seleção natural, parece que nossa intuição é capaz de capturar este fato de um modo adequado. E direto: não precisamos realmente acrescentar, como seria formalmente imprescindível, o intermédio da premissa “e o que é redondo não pode ser quadrado”. Para nós, tal informação é uma consequência da estrutura dos quadrados. É uma conclusão atingida, não uma premissa.

 

Nossa capacidade não é inesperada já que, sendo o mundo espacial, intuições geométricas eficientes sempre serão uma urgência darwiniana para quaisquer espécies com visão ou algo parecido (p. e., a ecolocalização dos morcegos). Assim, o análogo de “preservar a verdade” da lógica formal parece ser, em nossas mentes, a capacidade de representar mentalmente uma estrutura (física ou abstrata, estática ou dinâmica) de forma adequada e, em virtude disto, conceber de forma igualmente adequada as consequências estruturais da mesma – consequências estas relacionadas essencialmente com a própria estrutura em questão, tão somente, e para lá de quaisquer regras. Nossa intuição como que “preserva a estrutura”.

 

Esta certamente não é uma concepção consensual e, entre os filósofos, é hoje provavelmente minoritária. Em seu livro Gödel, Escher, Bach Douglas Hofstadter advoga vigorosamente pela visão contrária: “os pensamentos seguem regras formais ou não? Esse é o problema deste livro”ii. No fim das contas a resposta dele é “sim”, embora temperada pela explicação de que “não a nível consciente”iii. A ideia de Hofstadter é que nosso cérebro é um computador que, sim, opera através de regras formais em seu nível mais básico. Camadas e mais camadas de enorme complexidade acima, e passando por inúmeras formas de autorreferência, surge a nossa consciência enquanto tal. Assim, o que vem sendo chamado aqui de “intuição” é, segundo Hofstadter, apenas uma parte da consciência superficial e ilusória daquilo que, na verdade, são zilhões de processos formais inconscientes cascata abaixo.

 

Uma tal visão depende de duas suposições: as leis da física são suficientes para gerar a sintaxe (as regras formais); e a sintaxe é, por sua vez, suficiente para gerar a semântica (regras que realmente têm significados lógicos relacionados à verdade e à falsidade – em vez de serem meras regras arbitrárias).

 

O filósofo John Searle nos lembra que a sintaxe é uma propriedade relativa à consciência humana, análoga à propriedade de “ser uma nota de cinco reais”: nenhum objeto físico é intrinsecamente uma nota de cinco reais, já que não se poderia encontrar seu valor a partir de suas propriedades físico-químicas. Somos nós, humanos, que atribuímos valor monetário a certos pedaços de papel. Igualmente nenhum padrão físico é intrinsecamente sintático, pois nada no mundo está, para mais de seu comportamento físico, “seguindo regras formais”. Também somos nós que interpretamos sintaticamente certos sistemas que, em si mesmos, são apenas causais. Searle ainda argumenta que a sintaxe não é suficiente para a semântica (o que nos levaria muito longe) e, com isso, resulta que teorias como a de Hofstadter tentam explicar a mente subjetiva (consciência) através de conceitos (sintaxe e semântica) que são por sua vez relativos à consciência. E se este círculo de fato se dá, a casa cai para Hofstadter & Cia. Mas foge ao escopo deste texto seguir os problemas levantados por este debate.

 

Em vez disso, observemos a questão pelo outro lado: contra Hofstadter, foi dito que a razão humana é fundada em intuições, isto é, em uma capacidade de apreender adequadamente a estrutura intrínseca das coisas. E o que está por trás das regras formais, senão intuições? Ainda Hofstadter nos diz mais ou menos o seguinte [adaptação]: “a intuição ‘parece correta’, embora não se saiba exatamente por que, enquanto as regras formais são consideradas tão triviais que ficam acima de reparos; são, pois, supostamente livres de erros”iiii. Mas como assim “tão triviais”? Sim, poucas coisas poderiam ser mais óbvias do que uma regra como “A fórmula ‘A e B’ pode ser derivada a partir da fórmula A e da fórmula B”. Mas por que é óbvia? Certamente estamos, outra vez, confiando em nossas intuições para aceitar uma tal regra. E, por outro lado, não é o caso que “não se saiba bem por que” nossas intuições parecem corretas. É exatamente o de sempre: somos capazes de apreender a estrutura intrínseca do conectivo ‘e’. Isso não é um postulado. A única razão para aceitarmos a obviedade da regra acima é o fato de podermos perceber, em primeira mão, que o significado de ‘eimpõe tal regra. Todo mundo sabe disso a partir de sua própria reflexão. E, a partir deste ponto, já não é uma questão de “como sabemos” de algo assim. Sabemos porque é assim e porque podemos perceber isto. Esta é essencialmente a razão pela qual sabemos que a Lua existe, ou que dois mais dois são quatro3. A única questão que realmente resta é a seguinte: por que é assim, e não de outro modo? E esta já é uma questão eminentemente metafísica, a ser resolvida em outros meios.

 

Eis uma ideia bastante aproximada da aqui defendida:

 

“Algo está errado com a noção puramente formal da lógica. Apesar de ser imenso o ganho em distinguir claramente os aspectos normativos da lógica dos seus aspectos descritivos, talvez a lógica formal contemporânea tenha exagerado no sentido inverso ao erro do psicologismo…

(…)

…há razões para pensar que a almejada pureza lógica é uma fantasia. A lógica, se é alguma coisa, é uma teoria sobre algo. E o algo de que ela é teoria é constituído por dois tipos apenas de fenômenos: o fenômeno metafísico de ser impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, num argumento dedutivo válido; e o fenômeno epistêmico de podermos descobrir esse fenômeno metafísico considerando apenas a forma lógica.”

Desidério Murcho, Lógica, Psicologia e Epistemologia

A posição aqui assumida é a de que o fenômeno metafísico aludido é a condição de possibilidade do raciocínio dedutivo, mas é matéria da metafísica, e que o fenômeno epistêmico, que vai além da dedução e do formalismo, é resolvido em uma explicação evolutiva, e mentalista, de nossas intuições. Por outras palavras, as deduções funcionam porque a realidade simplesmente é lógica e não poderia ser diferente (e entender esse fato é um problema filosófico metafísico). E nós conhecemos tal fato através de nossas intuições, forjadas pela seleção natural: elas capturam a estrutura da realidade, que se impõe a nós, tanto quanto nossos pulmões capturam a química do ar e nossos ossos a física da gravidade. Só que o fazem de forma tratavelmente consciente, e não inconsciente.

 

Doravante a visão intuitiva do raciocínio, na medida em que (certamente) não ficou estabelecida pelo relativamente pouco que coube dizer, será simplesmente assumida. E como se trata do núcleo da ideia de razão, é importante entrar em detalhes, o que faremos a seguir. Mas é claro que, se você concorda com Hofstadter, ou possui outra visão, pode adotar alguma outra versão da definição de razão, sem problemas. Veremos que há total espaço para isso. O importante, outra vez, é termos a clareza de nossas posições, concordâncias e discordâncias filosóficas, sem usar as palavras de forma confusa – como às vezes parece ser positivamente do interesse de muitos.

 

 

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A seguir: parte V
Razão & Intuição

 

Quais os limites da intuição humana? Como lidar com o contra-intuitivo?
Há fatos ininteligíveis? Objetos de 4 dimensões são possíveis?

 

 

Notas de rodapé

(no pdf, localizadas na página relevante)

 

1 Estrutura própria de um objeto, evento ou padrão; que lhe é inerente ou essencial; que ele possui “em si mesmo”, e não em virtude de causas exteriores (extrínsecas). P. e., é intrínseco à estrutura do carbono ser quimicamente versátil, ou à do círculo ter sua circunferência medindo 3,14159… (p) vezes o seu diâmetro. É extrínseco ao papel valer 5 reais.

 

2 O termo “metafísica” está sendo usado aqui em sentido filosófico, significando basicamente “ontológico”: relativo ao ser fundamental do objeto referido. Poder-se-ia falar, em graus diferentes de especificidade, da natureza matemática ou geométrica dos quadrados, da natureza física ou líquida da água, da natureza sobrenatural ou divina (ou fictícia) dos anjos. Um termo neutro e geral é “metafísica”: a natureza metafísica de um certo objeto ou padrão, aquilo que ele de fato é essencialmente. P. e., é (parte) da natureza metafísica da água ser física.

 

3 Aos especialistas: deliberadamente dei um exemplo de conhecimento a posteriori (a Lua existe) e outro a priori (2 + 2 = 4). Em uma visão intuitiva da razão, a epistemologia não distingue tais casos, senão porque o primeiro é percebido pelos cinco sentidos e o segundo pela inteligência. Mas ocorre basicamente o mesmo: há fatos objetivos, como os fatos sobre o sistema solar e os números, que se impõem a nós; e, por isso mesmo, somos capazes de percebê-los. Como, exatamente? Essa é uma pergunta para a neurociência. Mas o sucesso de nossas teorias, na prática, é garantia de que percebemos as coisas como elas são.

 

 

Notas

 

* Revisão feita por Leo Arruda.

 

i HOFSTADTER, DOUGLAS R. Gödel, Escher, Bach – Um Entrelaçamento de Mentes Brilhantes, p.79 (Editora UnB, 2001).

 

ii Por exemplo: “Podemos não ter consciência delas [das regras] e tender a crer que operamos com base no significado da palavra; mas isso, afinal de contas, é apenas um rodeio para dizer que somos guiados por regras que nunca explicitamos.” HOFSTADTER, D. R. GEB, p.94 (UnB, 2001).

 

iii Original: “A demonstração [informal] é simples na medida em que cada passo ‘parece correto’, embora não se saiba exatamente por quê; a derivação [formal] é simples na medida em que cada um de seus milhares de passos é considerado tão trivial que fica acima de reparos, e uma vez que a derivação como um todo consiste exclusivamente em tais passos triviais ela é supostamente livre de erros.” HOFSTADTER, D. R. GEB, p.239 (UnB, 2001).