Razão – Uma Visão Intuitiva: Parte IX Razão & Emoção

por Lauro Edison , 2012 *

Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir, meu irmão, só sentir.”–Caio Fernando de Abreusituação é conhecida demuitos: você está apaixonado por uma pessoa que, com toda a probabilidade, te fará sofrer. E muito. Mas quase que por isso mesmo te fará se sentir no paraíso, na remota possibilidade de tudo dar certo. Eis que a humanidade inteira se divide em duas alas: os racionais e os emocionais; os calculistas e os românticos. Os primeiros defendem que a atitude racional é evitar o envolvimento a todo custo, “agir com a cabeça”, evitando assim a estupidez de abraçar uma ilusão. Os segundos defendem que a única atitude honesta é se entregar aos próprios sentimentos, “seguir o coração”, em vez de tentar enganar a si mesmo abafando a própria natureza. E quando acontece, todo mundo descobre que tem uma versão das duas alas na própria cabeça. Segue-se a oscilação típica: de “droga, estou sendo irracional” para “droga, estou sendo covarde”; de “droga, eu preciso parar!” para “droga, eu quero enga-nar quem?”.A paixão romântica é apenas o exemplo mais agressivo de como nossas emoções e instintos fazem nosso raciocínio entrar em parafuso. Qualquer pessoa sob forte estresse, raiva, medo, fome, tesão ou alegria está propensa a tomar atitudes que, em geral, consideraria estúpidas, im-pensáveis ou excessivas. É destes conflitos, tão familiares a todas as pes-soas que já viveram, que surge a ideia de que razão e emoção sãoopostos, incompatíveis ou, pelo menos, completamente separados. Não é uma con-cepção perfeitamente adequada? Certamente, se você quiser frustrar a maioria de suas emoções da forma mais irracional possível.A2www.ierfh.orgMesmo a tradição filosófica considerou, desde Sócrates, Platão & Cia., que havia alguma oposição fundamental entre a razão e os instintos. De fato, era justamente para poder escapar do mando dos instintos, acre-ditavam eles, que a razão servia. Essa ideia ainda é talvez a concepção mais comum sobre a relação entre a razão e as emoções. Mas é falsa. Nos-sos instintos e emoções são a fonte exclusiva de nossos desejos funda-mentais e, como vimos, a única diretriz invariavelmente racional, para qualquer indivíduo dotado de desejos, é a de procurar satisfazer taisdese-jos da melhor forma possível. Segue-se que a razão não poderia estar mais a favordas emoções e instintos.O que acontece quando estamos sob fortes emoções e, então, racio-cinamos mal, é apenas um caso particular do fato de que, em tais estados, fazemos qualquer coisamal excetolevar as emoções a termo. É por isso que elas ficam intensas, afinal: para serem atendidas, custe o que custar. Quanto mais darwinianamenteurgente ou importante é uma situação, mais a seleção natural agiu no sentido de nos tratar como marionetes. Ela é boa nisso, pois começou assim: insetos, águas-vivas, lagartos –prova-velmente todos eles agem como marionetes, a cada passo, ao menos a maior parte do tempo. Agora você pode se perguntar: qual a vantagemde ficar estúpido e fora de si, justamente nas situações mais importantes e intensas? Pra você, nenhuma. Pros seus genes, toda.Essa é, de fato, a tensão essencial inerente a seres racionais e bioló-gicos como nós: somos desenhados para sobreviver e reproduzir, não para ser felizes. Mas o que queremos é ser felizes, mais do que (meramente) so-breviver e reproduzir. Com o resto dos animais os títeres em geral funcio-nam bem: eles alegremente vão atrás do que lhes pareceagradável, a cur-to prazo, sem grandes reflexões sobre as consequências e alternativas. Mas nós temos a bênção (pra alguns a maldição) de perceberque nossos desejos imediatos, muitas vezes, vão nos prejudicar a longo prazo ou, ao menos, trarão pouco benefício em comparação com certas alternativas menos instintivamente desejáveis. E então podemos seguir outra rota. Nossarota. A consequência mais icônica desta liberdade é a existência de preservativos. A seleção natural perdeu o controle? Aparentemente ela po-de se dar o luxo de nos permitir ir contraa propagação de genes, em casos específicos, porque ao contrário dos chimpanzés e seus amigos, já esta-mos em sete bilhões. Obviamente nossa liberdade compensou. Mas não sozinha. Nos momentos-chave nós ainda perdemos o controle –ou quase isso. A liberdade que a Mãe Natureza nos concede é condicional.Podemos quebrar essas correntes?3www.ierfh.orgUma coisa óbvia: é mais difícil para você, sedento de raiva, conse-guir equilibrar uma pilha de pratos, do que para um equilibrista profissio-nal, sedento de raiva, fazer o mesmo. O que isso significa? Que treino e aprendizado funcionam. E não precisam funcionar apenas para objetivos tão inúteis quanto o de equilibrar pratos com raiva. Uma pessoa altamen-te reflexiva, acostumada aos benefícios de prever as consequênciasdiante de explosões emocionais, certamente terá mais facilidade para evitar o im-pulso de puxar o gatilho, numa acalorada discussão de trânsito, do que alguém vulgarmente instintivo. E mesmo num caso simples e comum des-ses, a diferença pode ser tão grande quanto a que existe entre, por um la-do,se ir preso por destruira vida de alguém e, por outro,continuar com avida perfeitamente nos trilhos. Não tem conversa: ampliar a capacidade de se manter “em casa” diante de emoções intensas é uma estratégia eminen-temente racional, dado o manual de instruções da natureza humana. E isso não é ir contra as emoções, mas sim contra a cegueira imediataque elas às vezes provocam. A recompensa por não sair de si será, muitas ve-zes, nada menos do que satisfazeràs mesmas emoções, só que de um mo-do mais inteligente e sem consequências (emocionalmente!) negativas.Infelizmente existe uma ilusão persistente no caminho deste objeti-vo. Há um aspecto sobre o qual é especialmente correto o diagnóstico de Schopenhauer de que “a inteligência…”–justamente essa capacidade ra-cional de encontrar motivações além, capazes de competir com os muitas vezes obtusos desejos imediatos–“…éinvisível para quem não tem nenhu-ma”. Dificilmente é possível superar a seguinte citação, a esse respeito:“O homem possui todos os impulsos que têm [as criaturas inferiores], e muitos outros além destes (…). Será observado que nenhum outro ma-mífero, nem mesmo o mico, mostra um leque tão amplo deles.A razão, per se, não pode inibir os impulsos; a única coisa que pode neutralizar um impulso é um impulso no sentido contrário. A razão po-de, contudo, fazer uma inferência que estimulará a imaginação de for-ma a liberar o impulso no sentido contrário; e assim, embora o animal mais fértil em razão possa também ser o animal mais fértil em impul-sos instintivos, ele nunca pareceria o autômato fatal que um animal meramente instintivo seria.”–William James, The Principles of Psychology (1890)O problema é que, como também Nietzsche percebeu, “aqueles que foram vistos dançando foram julgados loucos por aqueles que não podiam ouvir a música”: a motivação que se ergue a partir de reflexão racional, por 4www.ierfh.orgintensa e inspiradora que seja, costuma ser indetectável pela sensibilidade dos que ignoram o resultado daquela reflexão. Como é típico avaliarmos as estratégias e escolhas alheias com base em nosso próprio horizonte, o re-sultado é que as motivações dos outros, se forem sofisticadas o suficiente, nos serão invisíveis. E então nos parecerão frias, forçadas e inautênticas.Sentimos que, se fosse conosco, nós teríamos sido “mais emocionais e in-tensos”. Essa estupidez é generalizada a ponto de ocorrer em casos tão simples quanto o da pessoa que, nunca tendo lido um livro, se pergunta como a outra pode ser tão débil eenfadonha a ponto de suportar a mono-tonia de ler, com artificial determinação, páginas e mais páginas de abor-recido texto. É exatamente o receio de se tornarem “frias e apáticas” desse modo que leva muitas pessoas a antipatizarem com a perspectiva de se tornarem mais racionais. Mal desconfiam que a única razão de haver pes-soas insistindo em atitudes e preferências “tão maçantes” é terem encon-trado experiências mais emocionais e intensas. O que deveria ser óbvio. Sendo os humanos como são, o que mais poderia entusiasmá-los, afinal?A razão, portanto, certamente não nos leva à impulsividade român-tica de simplesmente “seguir o coração”, mas tampouco se trata de abra-çar uma ranzinza e paralisante frigidez estóica, ou budista. É preciso der-rubar a imagem de fria sabedoria, típica de mestres eremitas (como o Yoda de Star Wars, ou o Gandalf de O Senhor dos Anéis) ou de pessoas roboti-camente calculistas, essas que passam por “racionais” –se é que tais cari-caturas existem fora da imaginação dos de índole romântica.A recusa dos próprios desejos não é sabedoria nenhuma, mas apenas covardia e con-formismo: fugir das armadilhas dos desejos, em vez de ousar desarmá-las. Que tais armadilhas emocionais tenham dado origem a duas formas clás-sicas e antagônicas de estupidez, as que vimos logo no começo, é o sinto-ma mais visível de nossa condição natural. A primeira estupidez é o ro-mantismo: seja autêntico, siga suas emoções!A segunda é o estoicismo: seja racional, ignore suas emoções! O mínimo que se pode diagnosticar disto éque, no que se trata de nossas ações, temos uma forte necessidade de nos agarrar a fórmulas simples, de aplicação geral. Há um motivo fun-damental pra que isto seja assim: se falharmos, a culpa é da fórmula –e dos conselheiros, da ideologia, do saber popular, que não cessam de repe-tir as fórmulas nas mais diversas embalagens –e não de nossa (inexisten-te) deliberação. Isto é, recusamos aresponsabilidade. E por quê?Voltemos à nossa típica condição evolutiva africana de há centenas de milhares de anos: responsabilidade é uma péssima coisa pra se ter, so-cialmente, em um mundo onde o apoio do grupo é vital e onde, salvo aqui-lo que já é do conhecimento de todos (os 30 a 60 indivíduos desconfiados 5www.ierfh.orgque te cercam, desde que você nasceu, e dos quais você não podefugir, para refazer sua imagem em outro grupo), qualquer grande inovação raci-onal é, na melhor das hipóteses, mal informada e arriscada. Neste cenário, a pressão para a conformidade, para o espírito de rebanho, é colossal: faça o que os outros fazem, poiso resto provavelmente não dará certo. E o mais importante: se você fracassar seguindo uma fórmula popular, ou uma atitude comum, a culpa não é sua; foi apenas azar. Mas se você fra-cassar tomando atitudes excêntricas, baseadas em raciocínio próprio, per-derá até mesmo a confiançados outros. O preço social é muito mais caro.E ainda nascemos basicamente com a mesma covardia inata. Você sabe, os genes são lentos. A diferença é que agora, muito ao contrário de antes, a qualidade da informação disponível tornainconcebivelmente me-lhor se guiar pela razão, que pode fazer muito, do que pela maioria, cujo instinto de “seguir a maioria” é hoje tão obsoleto quanto o instinto, outro-ra eficaz, de ingerir açúcar até o limite da capacidade. E… Continuamos sentindo e evitando o peso da responsabilidade. Há mesmo uma teoria na-tural da religião segundo a qual esta surge justamente da necessidade de evitarmos a responsabilidade: façamos o que fizermos, “foi conforme a vontade dos deuses” –se der certo, maravilha; se der errado, Cristo ou Alá sabem o que fazem. Dados os nossos instintos covardes, é um dispositivo brilhante.Ou não mais. O que a capacidade racional nos apresenta agora é o potencial de tomar as rédeas de nossa natureza, ainda que de forma indi-reta e estratégica. Assumir a responsabilidade, afinal. Mas levar nossos desejos à maior intensidade e realização, em vez de meramente evitá-los, oque equivale a não realizá-los;ou obedecê-los cegamente, o que equivale a só realizá-los de forma dolorosamente parcial e destrutiva.Não somos me-ras vítimas de nosso desequilíbrio emocional inato. Apesar de tudo, temos capacidade de previsão e deliberação. A seleção natural e, com ela, nossos genes e instintos, não. Isso basta para tornar estúpida a regra geral seja de “seguir as emoções”, seja de “evitar as emoções”. Um olhar perspicaz sobre quaisemoções, consequências, fatos e alternativas estão disponí-veis, isto sim é uma atitude racional –algumas emoções serão evitadas, assim que se percebaque as alternativas são melhores e, portanto, outras emoções então despertadas, mais intensas e satisfatórias, serão seguidas. Cada caso é um caso. Os detalhes importam. Não há auto-ajuda ou solu-ção simples e mágica. E somente a razão pode avaliar concretamente o que estiver em jogo. O resultado será uma atitude bem mais complexa e eficaz. O preço? Quanto mais obtusos forem os observadores, mais per-turbados ficarão com a excentricidade de suas atitudes.6www.ierfh.org● ● ● ● ●Foram os excêntricos, afinal, que moveram o mundo desde sempre. Algumas pessoas pareciam simplesmente ter a disposição emocional de não sentir tão fortemente a necessidade débil de se parecer com as outras pessoas. E podiam seguir, livresedonas de si, como sugeria Oscar Wilde, ele próprio um excêntrico paradigmático, seus próprios caminhos, dando ao mundo o melhor de si mesmas. Isto, claro, quando as demais não as impediam. Quem sabe o primeiro deles tenha se parecido com o austra-lopiteco de 2001, triunfante; mas provavelmente tenha sido apenas um dissidente que, incompreendido, caiu no ostracismo. Como tantos. Passa-ram agricultores, escritores e diversos inovadores anônimos; passaram Asokas, Tales, Epicuros, Eratóstenes, Demócritos, Khayans, Arquimedes, Keplers, Galileus e Newtons. E, graças a eles, vivemos hoje num contexto vastamente mais espetacular do que eles próprios viveram: os sucessos da razão epistêmica, atingindo da estrutura da matéria ao passado e futuro do Universo, além de toda a sutileza conceitual, lógica e metafísica atingi-da pela filosofia em suas diversas frentes; e os sucessos da razão prática, da medicina à internet, da segurança aos transportes. A razão é suficiente para melhorar até a vida daqueles que francamente a hostilizam, e queparecem preferir desdepolíticos parasitas a vendedores sedutores.Pra onde vamos? Sendo realistas, mas nada óbvios, a tecnologia avançou mais no último século que nos últimos dez mil anos; e mais na última década que no último século. Com uma velocidadesem preceden-tes, os frutos da racionalidade estão se incrustando em cada artéria soci-al, em cada relação, em cada momento de cada pessoa. Não poderia haver melhor propaganda para a razão do que seu sucesso. E ainda nesta gera-ção as coisas serão mais revolucionadas do que já foram na última déca-da. Em que direção? Na direção de nossos desejos. E quais são eles? Ro-mantismos e estoicismos à parte, são os óbvios e naturais: saúde, segu-rança, liberdade, afetos. Que nos levarão à imortalidade, ao fim da violên-cia, à colonização de outros planetas e ao fim do governo parasitário (per-doe-se a redundância) e, por fim, ao aumento sem precedentes de toda forma de cooperação e empatia. Cedo ou tarde, mas seguindo a tendência dos últimos dois mil anos. Você não pode deter isto –e por que alguém iria querer tal coisa? Você só pode tentar escutar essa música.Uma última lição crucial para os românticos, e na língua deles:“Os sentimentos e sua derivação dos preconceitos. ― „Confie no seu sentimento!‟ ― Mas sentimentos não são nada de último, nada de ori-7www.ierfh.orgginal; por trás deles estão juízos e valorações, que nos são legados na forma de sentimentos (inclinações, aversões). A inspiração nascida de um sentimento é neta de um juízo ― frequentemente errado! ― e, de to-do modo, não do teu próprio juízo! Confiar no sentimento ― isto signifi-ca obedecer mais ao avô e à avó, e aos avós deles do que aos deuses que se acham em nós: nossa razão e nossa experiência.”― Nietzsche, Aurora, § 35É preciso compreender, antes de tudo, que os sentimentos, emo-ções, instintos, não são um guia encantadopara a ação, como certamente parecem às vezes. Algumas pessoas encaram seus impulsos mais profun-dos como se fossem algum tipo de sinal do Universo ou mensagem de Deus. E sentem que, se seguirem tais cantos de sereia, a realidade cum-prirá sua parte no acordo, conspirando para tudo dar certo. Isso não é meraingenuidadede nossa parte, mais uma profunda ilusão esculpida em nossa biologia:onde o sóbrio realismo tenderia a nos desviarda eficiência darwiniana, a seleção natural embutiu, em nossos sentimentos e desejos mais candentes, uma promessa mágica de realização. Esseé o delírio hu-manofundamental, exibidoem toda a sua potência no sucesso de vendas de O Segredo, um livro que reafirma “cientificamente” aquilo que todo mundoquer ouvir, porque de fato o sente no mais fundo de seu ser: peça com profunda sinceridade e o Universo dará. Genial, Rhonda Byrne, se aproveitando do ponto fraco da humanidade! Quantos de vocês já se er-gueram, órfãos de um suposto Universo amigável? O nosso desafio nietzs-cheano é conquistar outra vez aquele otimismo jovial e alucinante, mas desta vez com uma diferença: será real; e será por nossa própria conta. Se você quer uma imagem da razão, O’Brien, imagine uma mão humana ma-nipulando o Universo, para sempre.Notas*Texto revisadopor João Lourenço.iiiiHOFSTADTER, DOUGLAS R. Gödel, Escher, Bach –Um Entrelaçamento de Mentes Brilhantes, p.126(Editora UnB, 2001).