Razão: Uma Visão Intuitiva — Parte VI: Resolvendo as Definições

por Lauro Edison, 2012 * (Ler partes I, II, III, IV e V)

 

Voltemos ao nosso “modelo neutro de definição” (cf. Parte II):

 

Proto-razão: é sempre o potencial de uma entidade (consciente ou não, viva ou não) de organizar, através de algum tipo de procedimento lógico (seja raciocínio, seja cálculo) que parte de algum tipo de “matéria-prima” examinável (dados, informações, representações subjetivas), soluções para alguma espécie de tarefa (pretendida ou programada).

 

Assumimos – bem, talvez você não tenha concordado, mas tudo bem – que os processos inferenciais que estão na base da racionalidade são essencialmente intuitivos e, portanto, mentais (conscientes). Se isto está correto, então qualquer entidade ou agente capaz de realizar tais processos será, também, consciente. E, se for assim, a matéria-prima utilizada em suas inferências será algum tipo de representação mental e subjetiva – seja fruto de percepção, memória, suposição ou imaginação. Por fim, as tarefas tipicamente realizadas por seres conscientes são fruto de seus instintos, desejos e objetivos em geral: polêmicas deterministas à parte, são tarefas (ao menos) concebidas como pretendidas, em vez de programadas. Todo este quadro coerente resulta exatamente na definição que foi inicialmente proposta:

 

Razão: faculdade dos seres conscientes de conceber, fazendo inferências a partir de representações mentais, meios eficientes para atingir os próprios objetivos.

 

Como vimos, esta é uma definição que decorre diretamente da ideia de que nossos processos de inferência são intuitivos, em vez de baseados em regras formais ou outra coisa. Ainda assim, e este é o problema que nos resta, a inteligência artificial pode em princípio gerar robôs cujo comportamento seja completamente indistinguível do humano – a não ser talvez por ser mais eficaz. O próprio Garry Kasparov não teria tido condições de adivinhar, com base apenas na partida de xadrez, que seu adversário fosse uma máquina inconsciente (por hipótese, se você quiser). E como definimos “razão” como uma faculdade consciente, segue-se que computadores como o Deep Blue são irracionais. O que, dado que ele derrotou o campeão mundial de xadrez (!), soa uma irrefutável reductio ad absurdum da proposta de que nossas intuições são indispensáveis para a racionalidade… “É claro que não são!”, você desejaria dizer.

 

O que está havendo? A razão é ou não essencialmente mental?

 

É e não é. Uma parte da razão que nós – australopitecos, humanos e chimpanzés – sempre conhecemos é certamente mental e, pelo visto, é uma parte que nossas intuições consideram indispensável. E como até Hofstadter sabe, embora dito em seus termos, “quando alguém dá uma definição para uma palavra comum, na esperança de que nos atenhamos a ela, é fácil concluir que não o faremos, pois continuaremos a nos orientar, de maneira substancialmente inconsciente, pelo que nossas mentes encontram em seus depósitos associativos”ii. A consequência disto para o nosso problema é que, quando as pessoas ouvirem dizer que um certo processo, sistema, computador, máquina, robô ou ser vivo é racional, terão a impressão automática de que se está dizendo que são conscientes. Mas se tal não necessariamente é o caso, e não é, pode ser má ideia aplicar a palavra “razão” onde, apesar da alta similaridade com nossa ideia natural de racionalidade, não haja consciência.

 

Ora, mas se sistemas como o Deep Blue1 e o software de Gelertner (cf. Parte II) são mesmo inconscientes, como conseguem “imitar” tão bem nossos processos de inferência, a ponto de nos superar? Certamente é graças à engenharia deliberada de cooptar as leis da física, em seu hardware, para implementar um padrão isomórfico ao que seria a obediência às regras da sintaxe lógica. E como tais regras são uma compilação de nossas intuições mais óbvias e gerais, é claro que a imitação (?) funciona bem. Além do mais, eles tendem a nos superar justamente onde somos fracos: poder de memória e processamento. Mas é só isso.

 

Porém é claro que “só isso” não encerra o caso. A dita “imitação” de nossos processos de inferência é tão boa que, com todo o direito, deve ser considerada uma outra forma de fazer inferências – não intuitiva, não consciente, mas legítima, pois ela de fato aproveita o elo entre a matéria-prima (dados, informações) e o resultado atingido (novos dados, ações). É só por isso que ela pode efetivamente nos superar, afinal. A complicação interessante é que, embora a consciência seja intuitivamente considerada uma condição necessária para a racionalidade, sistemas (por hipótese) inconscientes como o Deep Blue – e seus netos modernos muito mais impressionantes – exibem por sua vez uma condição que tendemos a considerar suficiente para a racionalidade: o poder de inferência.

 

Agora eis um ponto crucial (e fascinante) sobre o funcionamento de nossas intuições: se milhões de anos nos dizem que, por um lado, a racionalidade é necessariamente consciente e, por outro, o poder de inferência é suficiente para a capacidade racional, só pode ser porque – de forma transitiva – sempre consideramos o poder de inferência suficiente para a consciência, e esta necessária para aquele. O que a inteligência artificial está nos jogando na cara são contra-exemplos onde há poder de inferência sem haver consciência. Não obstante, a noção intuitiva que a palavra “razão” sempre nomeou continuará intacta diante de tais contra-exemplos. Para nós, a razão continua sendo o que sempre foi: sim, se algo pode fazer inferências, é racional. E, de forma independente, se algo é racional, é consciente. Mas então pior para a transitividade (!), pois se algo pode fazer inferências, como vimos, nem por isso é consciente.

 

A solução para este impasse não é fazer alguma regulamentação forçada sobre nossas palavras, mas apenas reconhecer que nossa intuição básica sobre a razão é rica o suficiente para se estender ao longo de duas condições cruciais que, até onde sabíamos, sempre ocorriam juntas: a consciência e o poder de inferência. Se um agente é capaz de fazer inferências, ainda que por outros meios (conscientes ou não), então é capaz de fazer aquilo que sentimos ser suficiente para a razão. E, se é assim, outra vez não vai funcionar nos pedir para aceitar incondicionalmente uma definição de razão que exclua o Deep Blue – mesmo se inconsciente, ele é racional num certo sentido irrecusável. Por outro lado, se um agente é racional à nossa maneira, isto é, se é capaz de fazer inferências intuitivamente, então ele é consciente.

 

Já se pode ver a saída do impasse: se algo pode fazer inferências, é racional (num sentido aberto). E se algo é racional (à nossa maneira), é consciente. Nem por isso, se algo pode fazer inferências, é consciente – pois não precisa fazer inferências do modo consciente que fazemos. A tentação de considerar conscientes o Deep Blue, o HAL 9000 ou os demais produtos da inteligência artificial é, no fim das contas, a tentação de fazer a suposição errada, ou arriscada, de que eles raciocinam intuitivamente. Neste caso, o “detalhe obscuro” a nos enganar é que eles fazem inferências através de derivações formais: um modo de fazer inferências totalmente imprevisto por nós. Um modo que é inconsciente (por hipótese (se você quiser (outra vez!))).

 

A definição aqui proposta certamente exclui a inteligência artificial, mas isto é proposital. Dizer que Deep Blue é racional é, dadas nossas intuições naturais, sugerir demasiadamente que ele seja consciente. E embora definir a razão como uma “faculdade consciente” seja, também demasiadamente, sugerir que Deep Blue é irracional, nossa definição não pretende ser exclusiva, mas apenas primitiva. Além disso, estou sugerindo deliberadamente que a segunda confusão (o Deep Blue ser irracional) é mais difícil de ocorrer, e também mais aceitável, que a primeira (o Deep Blue ser consciente). Pois a racionalidade de “quem” vence o campeão mundial de xadrez é óbvia, ao passo que inconsciência está muito longe de sê-lo. E você está inteligentemente pensando que, se é assim, então qualquer definição realmente adequada de “razão” seria neutra, em vez de, como a aqui proposta, deliberadamente induzir seja a irracionalidade seja a consciência do Deep Blue.

 

E já não vimos a definição perfeita antes?

 

Razão*: capacidade dos agentes de elaborar, fazendo inferências lógicas a partir de informações disponíveis, estratégias eficientes para atingir metas.

 

E sim, você pode adotá-la. Você pode fazê-lo agora mesmo! Mas, e esse é todo o ponto, depende em grande medida de seus objetivos. Uma definição como a última, se devidamente entendida, tem a vantagem de englobar todos os casos até agora disponíveis – aranhas, Deep Blue, humanos e mesmo, a depender de como seja entendida, a seleção natural. Mas tem a desvantagem de estar por demais distante de nossas intuições originais, e essa é uma nuance que não podemos perder de vista. Num sentido muito importante, a razão mesmo, a razão completa, é a razão do modo que nós a conhecemos: baseada em intuições conscientes. Esse é e sempre será, na prática, o nosso verdadeiro ponto de partida; e quero mesmo sugerir que o valor filosófico da definição neutra acima, ampla e adequada como seja, só se percebe de fato em contraste com a definição mais natural aqui proposta – que é irreversivelmente basilar. Não estou, como se vê, defendendo uma definição em detrimento da outra, mas antes indicando como elas devem funcionar e se articular entre si: nós só vamos entender as novas formas de racionalidade que cruzarem o nosso caminho, ou até que ponto faz sentido chamá-las de “racionalidade”, quando compararmos suas semelhanças e diferenças com a razão natural. Não podemos apenas deixar que uma redefinição como a exposta acima, baseada nos avanços da inteligência artificial, nos dê a impressão de que a consciência não tem nada a ver com a razão – como se isso fosse uma descoberta.

 

Apesar das semelhanças, sempre será importante poder dizer que o Deep Blue (ou, melhor dizendo, os produtos típicos da inteligência artificial), com toda a racionalidade que exibe, não é racional como nós – ainda que no fim das contas descubramos que ele seja. É crucial que a inteligência artificial só venha a ser considerada “racional como nós” por meio da descoberta de que, apesar das aparências em contrário, ela é consciente como nós, ou faz inferências intuitivas como nós, ou, ainda, que nós é que fazemos inferências através de regras formais, como ela! Em hipótese alguma se deveria considerá-la “racional como nós” porque por definição só há uma espécie de razão, a mencionada Razão*: isto seria perder as nuances mais relevantes em questão. Em vez disso, é assim que as palavras devem funcionar: elasticamente ancoradas na riqueza de nossas intuições e representações mentais – que são, e já o eram antes da linguagem surgir, a matéria-prima de nossas crenças e conhecimentos.

 

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Assim como estipular que “janta” seja, para certos fins “oficiais”, uma refeição que é “tanto noturna quanto a segunda feita no dia” não fará com que “almoçar de noite” deixe de ser uma espécie de janta, tampouco deixará de ser uma espécie de racionalidade aquilo que está por trás da inteligência artificial, em virtude de uma definição de “razão” que vise capturar nossa concepção natural, intuitiva e primitiva:

 

Razão: faculdade dos seres conscientes de conceber, fazendo inferências a partir de representações mentais, meios eficientes para atingir os próprios objetivos.

 

Num sentido óbvio, a inteligência artificial, e talvez também os insetos, os vírus mutantes e a seleção natural, fazem basicamente tudo isso, só que de uma forma prima facie inconsciente. Dito isto, é claro que eles podem ser agentes racionais segundo uma outra definição, derivada e aproximada da primeira, que é totalmente plausível:

 

Razão*: capacidade dos agentes de elaborar, fazendo inferências lógicas a partir de informações disponíveis, estratégias eficientes para atingir metas.

 

E em certos contextos, ou para certas opiniões, será adequada até mesmo uma definição que exclua o tipo de inferência intuitiva que (alguns de?) nós (achamos que?) fazemos:

 

Razão**: potencial dos sistemas autônomos de calcular, executando operações lógicas sobre dados de base, algoritmos eficientes para solucionar problemas.

 

Mesmo neste caso a primeira definição seria basilar, no sentido de expressar o tipo de ilusão original com a qual começamos, e que (e como) deve ser superada por definições mais precisas. Qual dessas hipóteses se revelará correta, é trabalho para a filosofia e a ciência. Mas aí estão as definições que, diante do advento da inteligência artificial, parecem as mais pertinentes para bem compreender o que é razão, bem como as mais adequadas com que lidar e argumentar. Acima de tudo, ainda que não se concorde nem mesmo com a escolha das três versões acima, é a espécie de discussão consciente aqui tentada que, parece-me, deve estar por trás de nossas escolhas definicionais.

 

 

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A seguir: parte VII
Razão & Objetivos

 

A razão epistêmica é um tipo de razão prática? A razão conflita
com a ética? Desejos podem ser racionais ou irracionais?

 

 

Notas de rodapé

(no pdf, localizadas na página relevante)

 

1 O Deep Blue é, na verdade, um mau exemplo de inteligência artificial, já que sua capacidade para o xadrez era mais baseada em força-bruta de processamento do que, de fato, em alguma sofisticação de raciocínio. Ainda assim, pela sua fama histórica, evoca e simboliza adequadamente o espírito da IA – na prática, é claro, esta é mais bem representada por sistemas modernos de inteligência artificial; e, sobretudo, por inevitáveis sistemas futuros.

 

 

Notas

 

* Revisão feita por João Lourenço.

 

i HOFSTADTER, DOUGLAS R. Gödel, Escher, Bach – Um Entrelaçamento de Mentes Brilhantes, p.126 (Editora UnB, 2001).