Razão – Uma Visão Intuitiva: Parte VII: Razão & Objetivos

por Lauro Edison,2012*or acaso não é também um exemplo escandaloso de racionalidade o supercomputador do Guia do Mochileiro das Galáxias, o “Pensador Profundo”, que apesar de não possuir quaisquer objetivos(para além de ver um desenho infantil!), é capaz até mesmo de encontrar a res-posta para a pergunta sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais? Ele é o epí-tome da ideia de que a racionalidade é indiferente a objetivos e interesses, sendo em si mesma apenas uma faculdade passiva.Claro que, de todo modo, isto só pretende estar certo em relação à racionalidade epistêmica, que é voltada para o conhecimento(a busca da verdade), e não à prática, que é voltada para a ação(justamente, atingir objetivos). Mas há uma motivação filosófica de peso para se concordar que P2www.ierfh.orga racionalidade epistêmica é, no fim das contas, apenas um tipode racio-nalidade prática: se não houvesse objetivos quaisquer no Universo, i. e., se não houvesse quaisquer agentes capazes de objetivos (incluso o objetivo de descobrir a verdade), não poderia haver qualquer forma de racionalida-de ou de irracionalidade. Uma pedra que cai não é racional ou irracional. Uma estrela que entra em supernova, ou um átomo que expulsa um elé-tron, tampouco.A exceção que logo se insinua fica por conta, justamente,de um ser hipotético como o Pensador Profundo que, embora sem quaisquer objeti-vos (assim parece), é capaz de compreender que dois mais dois são quatro e que a Teoria da Relatividade é correta. Mas até mesmo um ser assim concebido ou tem um conhecimento tão direto e gratuitoquanto o que nós temos ao observar uma árvore, e isso não é racionalidade, mas mera per-cepção; ou chegou às suas conclusões corretas através de investigação e raciocínioe, nesse caso, teve o objetivode descobrir a verdade. Seria isto uma petição de princípio? Não se pode raciocinar sem se ter oobjetivode racionar? Em algum sentido estranho, talvez –admitamos por hora. Mas o que está portrás do enquadramento anterior é a ideia de que um ser sem ob-jetivos fica inerte, não age; e qualquer ser que “age” apesar de não ter ob-jetivos é, na prática, como uma pedra que cai –não está realmente reali-zando uma ação, mas meramente obedecendo às leis da física ou, dito de modo mais amplo, sendo passivo. Como o raciocínio e outros processos inferenciais são tipos de ação, e como só há ação se houver objetivos, en-tão só há racionalidade se há objetivos.Esta concepção, cuja defesa fugi-ria ao escopo deste texto, será apenas assumida aqui. E que pareça atra-ente na proporção de suas vantagens, as quais tentarei esboçar a seguir.Cabe, contudo, um comentário sobre uma possível objeção gritante: também nós, humanos, “meramente obedecemos às leis da física” e, sendo assim, não somos racionais ou irracionais pela definição dada, pois não somos agentes. Nada é. Tudo é como as pedras, os planetas, os átomos. Bem, talvez –se está correta alguma mescla de fisicalismo e determinismo radical. Mas até neste caso existe uma óbvia diferença entre a maneira como pedras obedecem às leis da física e a maneira como seres vivos o fazem. Como diz Richard Dawkins em O Relojoeiro Cego:3www.ierfh.org“Tomemos, por exemplo, as leis do movimento. Se arremessarmos para o alto um pássaro morto,ele descreverá uma parábola graciosa, exa-tamente como prevêem os livros de física, cairá no chão e ali permane-cerá. Ele se comporta como um corpo sólido de uma certa massa e de uma determinada resistência ao ar deve se comportar. Mas se arre-messarmos um pássaro vivo, ele não descreverá uma parábola até cair no chão. Sairá voando e talvez não queira pousar nas redondezas.(…) O comportamento do corpo como um todo emergirá então [à diferença do primeiro caso]como consequência da interação de suas partes.(…) Para entender seu comporta-mento devemos aplicar as leis da física às suas partes, não ao todo.” p. 31Tal diferença é óbvia e suficiente para distinguir agentesde objetos inertes–ou, outra vez, é isto o que será assumido aqui. Também estou confiante de que é do maior interesse dos fisicalistas e naturalistas em geral aceitar alguma distinção do tipo e, sim, este foi um lance “político”. Mas obviamente a Caixa de Pandora de controvérsias metafísicas está apenas esperando para ser aberta. E isso certamente deverá ser feito em alguma oportunidade. Mas não aqui.Avaliando a Racionalidade dos OutrosTendo assumido a relação entre razão e objetivos, a consequência mais frutífera e importante é que apenas em relação a um certo objetivoé que se pode julgar se uma atitude foi racional ou irracional. Eembora es-teja tratando de explicar o que é inteligência, e não razão, o cientista cog-nitivo Steven Pinker dá uma exata ideia do que está em jogo aqui. E na verdade “inteligência” e “razão” podem praticamente ser tratados como sinônimos neste caso. O trecho é esclarecedor:“Tomar decisões „racionalmente‟, segundo algum conjunto de regras, significa basear as decisões em alguns elementos de verdade: corres-pondência com a realidade ou correção das inferências. Um alienígena que trombasse com as árvores ou continuasse a andar até cair num abismo, ou que fizesse todos os movimentos de cortar uma árvore, mas estivesse na verdade dando golpes contra uma rocha ou no vazio, não pareceria inteligente (…). Essas regras devem ser usadas a serviço do (…)critério [de]desejar e buscar alguma coisa diante de obstáculos. Se não tivéssemos uma ideia do que a criatura queria, não poderíamos nos impressionar quando ela fizesse algo para obtê-lo. Quem garante que a criatura não estava querendo trombar com a árvore ou dar ma-chadadas na rocha e, portanto, atingindo brilhantemente seu objetivo? De fato, sem uma especificação dos objetivos das criaturas, a própria ideia de inteligência não tem sentido. (…)Inteligência, portanto, é a ca-4www.ierfh.orgpacidade de atingir objetivos diante de obstáculos, por meio de deci-sões baseadas em regras racionais (que obedecem à verdade).”–Como a Mente Funciona, p. 72-73Um corolário dessa ideia é que, se você desejasse lamber postes em vez de fazer sexo, então a atitude racional seria sair na rua e seguir o fio elétrico, em vez de procurar parceiros sexuais. E de fato seria tão irracio-nal pra você procurar parceiros sexuais quanto é irracional para o ser humano típico procurar postes para lamber. Soa estranho? Conseguir compreender isto, em vez de obtusamente se apegar ao fato de que “ne-nhum indivíduo em sã consciência desejaria lamber postes –e, se dese-jasse, estaria doente e o racional seria se tratar”, é da maior importância. Não há porque pressupor a natureza humana típicana hora de avaliar a racionalidade de outros seres em gerale, muito menos,pressupor a sua natureza particularna hora de avaliar a racionalidade de outras pessoas. Mas se você consegue se colocar no lugar até mesmo de um alienígena ou animal que, por acaso, deseje lamber postes ou trombar em árvores, então você abriu sua mente para se colocar no lugar de qualquer pessoa ou cria-tura –mesmo e sobretudo quando os desejos dela não são compartilhados por você.Às vezes achamos isto óbvio, como quando crianças finalmente en-tendem que as galinhas não são estúpidas por ficarem “entediadas” cho-cando ovos: para as galinhasdeve ser bom. Mas às vezes somos cegos, como quando pessoas obtusas parecem intuir que o ato homossexual é de algum modo tão repulsivo para os homossexuais (que, portanto, só podem estar doentes ou perturbados) quanto seria pra elas. De fato, num ambi-ente intelectualmente pobre, o grosso das críticas pretensamente racionais se trata, isto sim, de críticas irracionais contra os desejos e preferências naturaise fundamentaisdos outros. Boa parte da má fama da razão, entre os que a detestam, é justamente a impressão de que a racionalidade se trata de criticar e corrigir desejos “errados” quando, na verdade, tais dese-jossãoirremovíveis–e, sendo assim, a racionalidadese trata de levá-los à realização. Também daí surge uma boa parte da confusa simpatia pelo relativismo: alguns dizem “cada um tem sua verdade” ou “cada um tem sua lógica” e, no fundo, querem apenas dizer “cada um tem seus desejos”.Mas é preciso qualificar muito bem esse último parágrafo. Um temor associado à concepção acima é o de que qualquer pessoa possa justificar qualquer atitude absurda com “esse era meu desejo”. Mas é claro que essa justificação só é boa se a declaração for honesta e, comparada com os de-5www.ierfh.orgmais desejos do indivíduo, bem pensada. Dada a natureza humana, nin-guém saudável tem realmenteo desejo de se destruir com drogas, por exemplo, ou de ficar numa situação objetivamente piorao abrir mão de certas posses, atitudesou crenças. E mesmo quando este pareça o caso, será devido a uma ignorância ou preconceito contra aquilo que seria obje-tivamente melhorpara o sujeito em questão –isto é, aquilo que, dada a natureza dele, o deixaria mais feliz, quer ele o perceba, quer não. Não há qualquer razão fundamental para que alguém sempresaiba mais sobre o que é melhor pra si do que quaisquer observadores externos. O digam os jogadores de xadrez. De fato, no caso de nossa espécie e de sua tendência biológica ao auto-engano, a verdade é quase o oposto.Já quanto àquelas pessoas tão comuns, que estremecem diante de qualquer sugestão de que possam estar erradas, seja em suas crenças, seja em suas atitudes, cabe ao menos um comentário: deveriam apenas se conformar com a liberdade que têm. Elas sempre vão poder fazer o que lhes dá na telha, afinal. E se não estão nem aí com qualquer sentido de racionalidade, por que deveriam de se preocupar se alguém mais reflexivo as percebe como irracionais? Tudo sopesado, o problema é delas.Razão versusÉtica?Mas a concepção de razão prática aqui esboçada leva diretamente a uma preocupação muito mais grave. De fato, fulminante: se alguém deseja realmentematar pessoas, mesmo em face de seus demais desejos, então é racional tentar fazê-lo? Bem, segue-se que sim. De fato é só por isso que ocorrem assassinatos e não ocorrem saltos para dentro defogueiras. Mas por isso mesmo muitos imediatamente rechaçam essa ideia de razão que –assim encaram um tanto apressados –“aprova” assassinatos. Pra elas, como que soa um alarme vermelho emocional. E talvez você ache difícil decidir se tal evasiva –emoções fortes à parte –é baseada numa falácia de apelo a consequência (negar a conclusão só porque é desagradável) ou num perfeito argumento sólido de reductio ad absurdum(a conclusão é absurda, portanto as premissas são falsas).Veja-se, p. e., o comentário fascinante de Hans-Johann Glock a respeito desta espécie de conclusão racional indiferente às nossas intuições éticas:“É pelo menos provável que possa haver tal coisa como ênfase excessi-vaem argumento e em um tipo particular de inteligência, pelo menos na esfera moral e política. Desde Platão, os filósofos mostraram uma mis-teriosa disposição de seguir o argumento, seja para onde ele levar. 6www.ierfh.orgMesmo ao atingir conclusões absurdas ou repugnantes, eles raramente se envolveram em um exame de consciência ou questionaram suas próprias premissas. Em vez disso, inventaram argumentos sagazes pa-ra descartar, como sem reflexão e obsoletos, os juízos, os valores e as práticas dos mortais comuns.”–O queé Filosofia Analítica?p. 162ªGlock faz tal comentário página e meia antes de falar sobre a defesa filosófica de Peter Singer de que é eticamente permissívelmatar bebês com síndrome de Down, até um mês após nascerem, se houver consentimento dos pais! Motivo? Considerações utilitaristas sobre a baixa probabilidade de tais bebês terem mais felicidade que tristeza, ao longo de suas vidas, e a alta probabilidade de os pais terem seu potencial de felicidade reduzido.Isto bem mostraque “questionar as próprias premissas” diante de uma conclusão eticamente estranha é, certamente, algo a ser considerado. Mas se esfriarmos um pouco a cabeça, creio que o problema sobre “ser racional matar” quase certamente desaparece. Pra começar, aqui não se trata de “aprovar” absolutamente nada (muito ao contrário de Singer, que de fato aprovava matar bebês com síndrome de Down;e o fazia justamente por aceitar motivaçõesde tipo ético): na medida em que possa se tornar racional para alguém, com base em seus desejos psicopatas ou desespe-rados, matar outra pessoa, será igualmente racional para o resto da popu-lação, com base em seus desejos de segurança e em sua empatia, tentar evitar isto –e, entre outras coisas, aprovar a existência da polícia. E na prática é isto o que ocorre.Nada de práticomuda em virtude dessa concep-ção filosófica. Mas, e eis o que incomoda, pode faltar algo como um “ca-rimbo da razão” legitimando o nosso desejo (moralista?) de acreditar que o criminoso, mais do que justificadamente impedido de realizar seusobjeti-vos (e isso não basta?), estava também erradoem algum sentido ético ob-jetivo. Até onde a razão vai, o psicopata estava simplesmente contra nós, num irremediável impasse de objetivos conflitantes. Alguém tinhaque perder e foi ele –ao menos se a lei funcionou.Mas se nem isso bastar, a filosofia ética ainda pode tentar justificar por meios independentes, e da maneira que intuitivamente desejamos, a desaprovaçãodesse tipo específico de ação: prejudicar os outros. A razão seria apenas neutra aqui. Ou, melhor ainda, neutra apenas na ausênciade outros pressupostos éticos, que poderiam muito bem ser verdadeiros.Acredito, no entanto, que essas tentativas de justificar o que talvez não passe de moralismo sejam, pra dizer pouco, menos importantes do 7www.ierfh.orgquea perspectiva de justificar a cooperação, em lugar do conflito, de uma forma estritamente racional. É isto o que está por trás da teoria dos jogos. E como diz um de seus atuais expoentes:“Minha visão total da moralidade é que ela se resume ao interesse in-dividual. É quando os patrimônios das pessoas estão correlacionados. Quando o bem estar de vocês conduz ao meu que eu decido, ah sim, sou completamente a favor de seu bem-estar. Isso é o que é responsá-vel por esse crescimento deste progresso moral até agora…”–Robert Wright, TED2006A ideia basilar é que a cooperação é sempre mais lucrativa, para ca-da uma das partes envolvidas, do que o conflito. A consequência direta é que quanto mais racionais forem as pessoas, mais cooperarão entre si. É difícil encontrar uma razão mais forte para o otimismo moral.Desejos podem ser racionais (ou irracionais)?Outra questão de crucial importância é se os próprios objetivos e desejos podem ter avaliada a sua racionalidade. Como esta é sempre rela-tiva a objetivose desejos, podem estes, por sua vez, ser considerados raci-onais ou irracionais? Neste ponto, é finalmente preciso distinguir entre desejos e objetivos. Enquanto os desejos são apenas as sensações mentais que nos impelem(mas não nos obrigam) a assumir objetivos, os objetivos são linhas de ação que efetivamente decidimosseguir. Por isso posso ter o desejo de comer sem ter o objetivo de comer, porque assumi o objetivo in-compatível de fazer dieta (em virtude do objetivode emagrecer, assumido em favor do desejode ficar esbelto). E também posso ter o objetivo de co-mer sem ter o respectivo desejo, porque estou doente e sei que preciso me alimentar (porque tenho o objetivode me curar o quanto antes, porque desejodeixar de me sentir mal).Dada essa relação entre desejos e objetivos, a resposta direta é que os objetivos são passíveis de avaliação racional, mas os desejos não. E os objetivos são racionais exatamente na medida em que levem à melhor sa-tisfação possível de nosso conjunto de desejos –que apenas nosé dado, sendo essencialmente arbitrário. Como um tal conjunto é composto por desejos muito variados, nas mais diversas intensidades e padrões, envol-vendo inúmeras possibilidades de conflito; e como os meios para satisfazê-los diferem em dificuldade, previsibilidade e consequências; segue-se que 8www.ierfh.orgnão é simples avaliar a racionalidade de muitos objetivos –sejam próprios ou alheios. Ainda assim, a racionalidade é, em última instância, uma questão de satisfazer desejos.O filósofo Desidério Murcho discorda desta visão:“Uma concepção deficiente da racionalidade entende-a como o mero uso de meios adequados para a satisfação dos desejos, estando estes para lá de qualquer consideração racional. Esta concepção é deficiente porque encara os desejos como se fossem impulsos independentes da realidade e insusceptíveis de avaliação racional. Mas os desejos são susceptíveis de avaliação racional precisamente porque dependem for-temente da realidade: quem tiver o desejo de dar um salto até a Lua estará a albergar um desejo irracional porque é impossível dar um salto até a Lua. Faz parte da vida racional a capacidade para modificar os nossos desejos em função da realidade conhecida: quem descobre que alberga desejos impossíveis de concretizar e nada faz para os abando-nar é irracional. A racionalidade não é uma via de sentido único em que se procura apenas adaptar o mundo e a verdade aos desejos; sem adaptar também os desejos ao mundo e à verdade não é possível ser racional.”–Verdade, do livroA Minha Palavra Favoritahttp://criticanarede.com/ed103.htmlÉ fácil ver o que ocorre aqui: apesar de o desejode saltar até a Lua, caso alguém o sinta, ser simplesmente um impulso não-escolhido e, por-tanto, impassível de avaliação racional, o objetivode saltar até a Lua pode certamente ser considerado irracional na maior parte dos casos. Por aca-so, somos constituídos de tal modo que desejosdesse tipo realmente de-saparecem, espontaneamente, diante da percepção de que são irrealizá-veis. Mas isto não é graças às nossas decisões racionais.Poderiaser de outro modo. Poderíamos ser vítimas de um desejo tão compulsivo de saltar até a Lua quanto é, em nós, o desejo de comer. A depender da intensidade e persistência de tal desejo, em algum ponto seria racional assumir o obje-tivo de saltar até a Lua (e buscar os meios tecnológicos pra isso), custasse o que custasse, pela simples razão de que a alternativa seria uma inevitá-vel miséria dolorosa. Dada nossa natureza, simplesmente não se pode di-zer que “quem tiver o desejo de comer num mundo sem comida estará a albergar um desejo irracional porque é impossível comer num mundo sem comida”. O desejo seria em todo caso inevitável. E o objetivode comer ain-da seria racional, mesmo diante de toda dificuldade, dado que apenas co-merevitaria o fracasso global do agente. E é claro que nada menos que a 9www.ierfh.orgonisciênciapoderia garantir a total impossibilidade de satisfazer o desejo, cuja prioridade então seria infinita.Ainda assim a passagem de Murcho é correta de um modo impor-tante. Embora modificar ou extirpar os desejos básicos seja impossível (ao menos para nós em nosso estágio tecnológico), há de fato muitas maneiras indiretas de evitá-los ou estimulá-los. Pra dar um exemploóbvio, não po-demos evitar sentir atração por terceiros, mas podemos evitar muitas cir-cunstâncias em que tais tentações sejam despertadas –ou, é claro, pode-mos procurar fazer com que não seja necessário evitá-las (buscando uma relação aberta, por exemplo,ou mentindo e aceitando as desagradáveis consequências e os riscos). Elaborar estratégias para despertar nossos de-sejos seletivamente, com base na razão e em nossos principais interesses, é certamente uma possibilidade e, ademais, uma parte fundamental dacapacidade racional.Mas de onde vêm os desejos? No caso de nossa espécie –e, até onde sabemos, de quaisquer espécies –, dos caprichos da seleção natural. Em nosso caso isso significa um conjunto de instruções mentais (desejos) vol-tadas para sobrevivência, reprodução e, o que é fundamental para obter ambas, interação social –tudo isto pela razão arbitrária de que somente os genes cujos “portadores” seguem tais instruções é que continuam exis-tindo geração após geração. Entre os muitos instintos e emoçõesque nos impõem toda espécie de desejos, estão: fome, sede, apetite sexual, medo, raiva, empatia, gratidão, ciúme, desejo de vingança, etc. E esse conjunto não é mais racional ou irracional, de nosso ponto de vista, do que seria qualquer outro. Simplesmente nascemos assim e nos cabe lidar com isto da melhor maneira que conseguirmos: eis onde a razão entra.● ● ●A seguir: parte VIIIRazão & VerdadePodem a ilusão, a ignorânciae falsidade serem racionais?Não é a racionalidade compromissada com a verdade?10www.ierfh.orgNotas*Texto revisadopor João Lourenço.iiiiHOFSTADTER, DOUGLAS R. Gödel, Escher, Bach –Um Entrelaçamento de Mentes Brilhantes, p.126(Editora UnB, 2001).