Verdade — A Virtude Menosprezada

Por Robin Hanson *, 2007 ** pdf

Uma virtude é uma qualidade admirável. Nossa sociedade reconhece algumas grandes virtudes, como tendências de impedir morte ou estupro, amar a natureza e sua família, se opor ao racismo e ao sexismo, e também muitas pequenas virtudes, como tendências de escrever cartas de agradecimento, esperar pacientemente na fila, e sorrir amigavelmente para crianças. Eu tenho refletido sobre o triste fato de que superar vieses parece estar em uma posição muito baixa aqui, provavelmente abaixo de sorrir para crianças.

Algumas virtudes aparentemente relacionadas à verdade estão em uma posição moderadamente alta no ranking. Por exemplo, ser sincero e honesto, quer dizer, fazer com que suas palavras reflitam suas crenças, parece estar em uma posição um pouco mais alta do que ser cândido e falar com simplicidade, quer dizer, refletir suas crenças claramente em suas palavras. Há também virtudes moderadas de ser imparcial e sem preconceitos, quer dizer, não trabalhar contra certos grupos, e ser humilde, não se colocando acima dos outros. Contudo, essas virtudes parecem dizer respeito mais aos desejos de outros de saber nossos pensamentos e de sermos tratados bem e com respeito; essas virtudes parecem apenas incidentalmente se tratar sobre ter crenças verdadeiras. Se nós procurarmos por virtudes diretamente ligadas a ter crenças verdadeiras, nós encontramos os rótulos preciso [accurate] e verdadeiro.  Nós também encontramos algumas outras virtudes frequentemente correlacionadas com ter crenças mais verdadeiras, como ser inteligente, versado, ponderado, meticuloso, escrupuloso, inquisitivo, sóbrio, cuidadoso, corajoso, e ter uma mente aberta. Contudo, as pessoas têm muitas razões que não a verdade para admirar essas outras qualidades. Por exemplo, nós admiramos pessoas inteligentes, escrupulosas e corajosas mesmo que essas qualidades não estejam relacionadas a crenças mais verdadeiras.

Então, a questão surge: o quanto nós admiramos a qualidade de ter crenças precisas (ou verdadeiras), para além de sua associação com ser inteligente, versado, etc., as qualidades as quais nós temos outros motivos para admirar? Parece-me que imparcialidade [unbiased] é nosso melhor nome para essas outras qualidades de precisão, e que, em nossa sociedade, o impulso emocional para respeitar e ter simpatia por precisão imparcial é, geralmente, muito pequeno.

Isso quer dizer que, comparado a ser inteligente, versado, etc., alcançar um nível baixo de vieses fará pouco, por si próprio, para fazer as pessoas quererem te eleger, escrever histórias sobre você, dormir com você, ou entrar para o seu time. Uma política pública que promovesse baixos vieses não teria, por conseguinte, muito apoio. Tendo a escolha entre ‘defender as barricadas’ dos vieses baixos ou de alguma outra causa, quase ninguém escolhe vieses baixos.

Agora, alguns filósofos elogiam, de fato, qualidades porque elas tendem a promover crenças mais verdadeiras. Além disso, de onze valores listados como ‘valores compartilhados’ oficiais por estatísticos, um deles é diretamente sobre evitar vieses:

A prevenção contra qualquer tendência para desviar o trabalho estatístico para resultados predeterminados.

E listas de valores científicos às vezes incluem não apenas dever e altruísmo (servir a e ajudar a humanidade), responsabilidade e respeito (servir e ajudar outros cientistas), e excelência (causar uma boa impressão), mas também integridade:

Ser preciso, verdadeiro, justo, objetivo… Falar publicamente como autoridades apenas nas áreas em que eles são especialistas… resultados são relatados com tanta objetividade quanto possível e sem nenhum viés deliberado… evitar o seu possível mau uso e má aplicação.

Mas essas são minorias bem pequenas que, mesmo elas, mostram apenas um apoio modesto. Na média, respeito pela virtude de superar vieses parece bastante baixo. A causa de nosso blog inspira pouco entusiasmo [o autor se refere ao Overcomingbias.com, mas isto poderia tranquilamente se referir ao IERFH.org também. N. do R.].

Quando se trata, entretanto, da visão interior que as pessoas têm de si mesmas em casos particulares, quase todo mundo acredita que possui, em um grau excepcional, a virtude de ter pequenos vieses. Quer dizer, enquanto poucas pessoas dão valor o bastante à superação vieses, a ponto de se dedicarem a ela, todos discordam de muitos outros, incluindo quem é mais inteligente, versado, ponderado, etc. E a maneira principal com que as pessoas justificam, em última instância, essas discordâncias, é alegando que os outros são mais enviesados.

Mas, se vieses são um grande fator por trás de discordâncias, e se discordâncias são um grande obstáculo para que se alcance grandes virtudes, então, isso não faz da superação de vieses uma grande virtude também? A maior parte das pessoas com uma causa se dedicam muito mais a promover sua causa do que a se tornar melhor em julgar precisamente se sua causa é tão boa quanto parece. Se, como resultado, muitos são enviesados a defender equivocadamente causas ruins, então, você não deveria se dedicar a superar seus vieses, em vez de assumir que você tem vieses extremamente pequenos? A verdade não deveria ser a sua causa número um, a virtude que você mais respeita, em vez de estar bem abaixo de sorrir para crianças?

Notas


  1. * Robin Hanson é professor de Economia na Universidade George Manson e pesquisador associado do Future of Humanity Institute da Universidade de Oxford.
  2. ** Texto traduzido por Lucas Machado. Revisado por Lauro Edison. O original em inglês pode ser lido aqui.